Inspiração de segunda, na terça

Fica difícil manter-se

Quando você some por uma semana

E a vida azeda

E o carro não pega

E não se sabe mais porque chora

o soluço  seco

Você chegou quando eu sabia quem era

E agora

Tantos anos depois

Você volta quando eu não tenho mais a mínima ideia de quem sou

Mas eu não sou mais aquela

(Graças a deus)

Nem consigo mais

Escrever uma linha inteira

Fico dando espaço

Espaço

Mas é difícil manter-se

Quando você some

Porque eu quero que você me (re) conheça

Mas as linhas foram cortadas

E agora é tudo virtual demais

E você off

E você off

Eu sempre on

Não tem encontro

Tem uma música

um filme

Tudo que eu queria te mostrar

Mas

Nem consigo mais

Escrever uma linha inteira

Fico dando espaço

Espaço

E você off

E aquele poema

Engoli

mais uma vez

o vigésimo coração

Não insisto

desisto

Eco

Odeio

quando me calam

E carregam minhas palavras

como eco em um abismo

Sem direito

 

Tão vulnerável

meu peito

rumina confissões

e cala declarações

que já não servem mais pra nada

Mulher Afrodite

Foto: Alessandra Soares
Foto: Alessandra Soares

A barra da minha saia vai arrastar na sua cara

meu pé pisar seu peito

e o perfume dos meu cabelo molhar sua camisa

*

eu vou dançar nas suas costas

sapatear no seu juízo

mordiscar sua língua

e bater  asas no seu ouvido

*

sussurrar no seu sono

deitar ao seu lado

tocar naquela música

exagerar seus desejos

*

eu vou estar lá

eu vou estar lá

mulher

Afrodite

Esvazia-dor

“Eu me apaixonei por você”, sussurrou ao silêncio do carro parado no sinal vermelho. Quase sem piscar, olhando pra frente, com a luz do semáforo refletindo no para-brisa. Não foi uma afirmação de quem se surpreende com a constatação, como uma revelação, foi um sussurro de quem entrega os pontos, transbordando naturalmente o que o peito não comporta mais. “Eu me apaixonei por você”, repetiu mais alto a medida que o eco da própria voz soava libertador. Repetiu o quanto quis até a frase  se transformar em canção. Um mantra. Que mal poderia fazer? Entregava-se apenas para si. Com os vidros fechados, o carro agora em movimento, as ruas quase vazias, nem Deus ouviria. E a quem interessaria? Nem a você. Por isso reverberou, assim, inofensivo, o mantra da noite. Esvazia-dor.

Para mainha. Domingo…

lonely_day_by_mangafan93

É, mãe, eu fui deixando o café mais forte e nem percebi. E também não tenho aquela vasilha de alumínio, amassadinha e gordinha, onde você sempre coou o seu. Certeza que faz diferença. Ultimamente, inventei de comprar uma garrafa menor, pra dar conta só de mim, mas nunca mais acertei o ponto, nem do sabor nem da quantidade. Acaba sempre sobrando.

Mas as nossas mãos estão cada dia mais parecidas, ainda mais quando passo a roupa do meu filho ou tempero o almoço. É impressionante. Percebi outro dia, enquanto ajeitava a fralda sobre a tábua de passar. Eu era toda você. Inclusive, até mudei de lugar. Ai em casa nunca teve tábua de passar, então tratei de esticar dois lençóis dobrados sobre a mesa de jantar, um em cima do outro pra ficar bem fofinho, e fazer do jeito que você sempre fez. Só pra me sentir mais perto.

Continuo lavando o banheiro com o desinfetante de pinho. Pra ter o cheiro que a casa ai tinha aos domingos. E até deixo a TV ligada no Faustão um pouquinho (mas só um pouquinho), pra lembrar como eu ouvia lá do meu quarto painho sentado no sofá rindo com a vídeo cacetada.

Já se foram 12 anos, mas acho que no fundo a gente nunca se acostuma. Chego a achar engraçado como estranho até o sotaque de vocês, mas quantas vezes não me pego usando expressões que só falamos por ai, só pra me sentir um pouco mais perto.

Eu me orgulho de absolutamente tudo em mim que parece com você, até dos defeitos!

Sinto saudade todos os dias.

Noite passada

June_by_Il_Tramonto

Se por acaso você encontrar minhas roupas, amarrotadas, no chão do seu quarto, avisa para elas voltarem para casa.

Sai exposta.

Se encontrar meus olhos, de maquiagem borrada, fixos, no seu espelho, ensina para eles o caminho do meu rosto.

Sai cega.

Se minha voz, em sussurros, ficou ecoando pela casa, fala pra ela que minha garganta espera.

Sai muda.

Se meus ouvidos ainda estiverem descansando no travesseiro, atentos a sua respiração enquanto dorme, diz pra eles me encontrarem.

Sai surda.

Se meu peito…

Não, não! Quanto a ele não se preocupe. Voltou comigo, em festa!

Amor

Errado não está você, que ama. Nem o outro, que nunca quis ou deixou de querer. É só a vida sendo a vida, contraditória, inquieta, cheia de planos estranhos. Nos sentimos humilhados, rejeitados, idiotas, e nos enchemos de comportamentos orgulhosos para levantar nossa autoestima e desmerecer o outro. Bobagem! Talvez esse sofrimento tenha mais de ego ferido, de orgulho, do que de lamentação por não ter sido acolhido o amor que se ofereceu.

Mudemos o foco: o amor é um sentimento nobre, que envolve mais um monte de sentimentos elevados, e se é verdadeiro, é mérito para quem é capaz de senti-lo, não demérito. Significa que a pessoa está disposta a doar-se, a cuidar, a compartilhar a vida…Acho que se aprendermos a mudar o foco, nos desgastaremos menos, desnecessariamente, alimentando sentimentos ruins. Amor nunca é desperdício. Nunca é idiotice ou perda de tempo. Amor nunca é negativo (se o é, se chama outra coisa). Amor nunca faz mal a quem o sente. E se você o sente, não há motivo para se lamentar, isso diz muito sobre quem você é.