Crítica do professor Wellington Pereira sobre o romance Sandálias Vermelhas

Rascunho epistemológico
Mulheres de Boa Prosa.
Sandálias vermelhas
(um romance de Renata Escarião – notas de leitura)

Se há um lema que pode definir a caminhada de Alice, a personagem do romance Sandálias vermelhas, da escritora, jornalista e professora paraibana Renata Escarião, seria: o máxima de solidão sob os auspícios da razão moderna.
Com Sandálias vermelhas, a jovem escritora venceu o prêmio José Américo de Almeida da Fundação Espaço Cultural José Lins do Rêgo, há quase três anos, mas só agora os vencedores tiveram seus livros publicados.
Sandálias vermelhas, como romance de estreia demonstra virtudes e incertezas na construção da estrutura narrativa, mas não deixa de provocar certas inquietações em torno do percurso da personagem, do diálogo que provocar,positivamente, do ponto de vista do modelo de um gênero que nasceu com a burguesia e o seu projeto de narrar o mundo angustiado de homens na tempo da modernidade.
A fabulação de Renata Escarião é ousada,mas precisaria de um reforço estrutural, pois em alguns momentos derrapa na forma: parágrafos curtos se alternam com longos, indefinições na apresentação e divisão dos diálogos. Mas estes aspectos não comprometem o enredo de Sandálias vermelhas.
O narrador está, na maioria do percurso das personagens, na terceira pessoa, modo dramático, onisciente, o que faz com que o foco narrativo se assemelha aos romances existencialistas, sem apelar para a comodidade do fluxo da consciência, técnica narrativa em que se reverbera a consciência dos autores
Ha parágrafos imensos que provocam uma confusão siléptica, na qual o leitor é acometido por uma ‘vertigem’, girando em tono de tópicos frasais – mas nada que uma releitura não conserte,pois o problema de julgar textos, em concurso literário, é que se autentifica material cru, sem, na maioria das vezes, podas adequadas para fazer fluir a narrativa.
Mas o romance de Escarião é ousado.
A ousadia de Sandálias vermelhas começa na distribuição dos capítulos: o meio, o fim, o início, a continuação.
No uso da temporalidade que emoldura os capítulos, Renata conta uma história que, de acordo com a tradição filosófica, nos remete a Santo Agostinho e sua elasticidade do tempo.
A personagem Alice vive o tempo em instantes e momentos; reflexivos de um amor (amor burguês nos moldes dos romances do séc. XIX) que abre novos pontos temáticos de acordo com o percurso narrativo.
Escarião autoriza o seu narrador a dissecar a personagem Alice, a verificar o embate entre o mundo sensível e o mundo das ideias.
O resultado narrativo. em Sandálias vermelhas, é a melancolia emblemática das personagens modernas, traídas pela eficiência dos sistemas peritos da modernidade que ofereciam a salvação teológica através da razão
Para suavizar as distorções entre a imaginação e o mundo moderno, entrelaçados por perdas, Alice busca no amor às palavras o ponto de fuga para suavizar as dores físicas e metafísicas.
Alice é um personagem que escreve, descreve os homens, uma Mary de Jane Austen cheia de ideias apriorística.
Alice guarda episódios no vai-e-vem do tempo.
Alice é triste, intelectual, urbana,rural.
Alice, depois de um episódio revelado com maestria no final do romance, viu o medo no olhar dos homens.
Alice tem um gato que roça em suas pernas. Mas esta Alice não se confunde com a outra Alice que acredita no sorriso do gato.
Alice é um personagem metalinguístico que denuncia a violência, a padronização dos comportamentos humanos através de uma ‘razão instrumental’ em detrimento de uma razão sensível.
A avó Catarina, a amiga Beatriz, são as personagens que emanam e emulam o afeto frágil no percurso das heroínas do romance moderno, como Alice de Sandálias vermelhas.
Alice trata ‘seus homens’, Dimitri e Bernardo, com a distancia imposta pelo narrador, na qual cada personagem masculino ocupa apenas a marcação do palco.
O elã vital do romance é determinado a partir da escrita, da angústia de Alice, na luta da astúcia da razão – na qual a Alice está presa- contra a razão da astúcia – o momento em que se invoca a poesia e as formas da vida cotidiana calçadas com o desejo representado pelas Sandálias vermelhas.
Um romance denso, sofisticado, que mostra Renata Escarião como uma jovem escritora madura, sobretudo tendo guardado o amor pelas palavras no sentido nietzschiano :
AMOR FATI, amor pelo mundo.

Wellington Pereira: possui graduação em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba (1985), mestrado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1989) e doutorado em Sociologie – Université Paris-Descartes (1999). Atualmente é professor titular da Universidade Federal da Paraíba. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: jornalismo, mídia, cotidiano, comunicação e cultura. Coordena desde 2002 o Grupecj- Grupo de Pesquisa sobre o Cotidiano e o Jornalismo. Em setembro de 2010, criou com os pesquisadores do Grupecj a I CESQ – Primeira Conferência de Estudos sobre o Quotidiano.

 

Anúncios

Premiada em concurso literário, Renata Escarião lança romance sensível e envolvente

Finalmenteeeeee, depois de quase três anos de espera, meu primeiro romance, Sandálias Vermelhas, premiado no José Américo de Almeida 2014, promovido pela Fundação Espaço Cultural (Funesc), está impresso e em mãos (emocionada!)! Lançamento marcado para o próximo dia 27, às 19:00, no Espaço Mundo, Centro Histórico de João Pessoa! Conto com a presença de todos e todas! 

Confiram o release que a talentosa e amiga Reny Barroso escreveu para divulgação! 

 

Premiada em concurso literário, Renata Escarião lança romance sensível e envolvente 

“Vocação gera desejos e desejos nos movem”. A vocação que a escritora e jornalista paraibana Renata Escarião carrega em si a conduziu, desde cedo, pelos caminhos das letras, motivando não apenas suas escolhas, como sua trajetória pessoal e acadêmica. Sandálias Vermelhas, seu romance de estreia – e de onde foi extraída a frase que abre este texto – será lançado no próximo dia 27 de julho, às 19h, no Espaço Mundo, na Praça Antenor Navarro, no Centro Histórico de João Pessoa. O livro foi contemplado no Prêmio José Américo de Almeida, promovido pela Fundação Espaço Cultural (Funesc) em 2014 e, desde então, aguardava publicação.

‘Sandálias Vermelhas’ é narrado em primeira pessoa por Alice, uma jovem de “trinta e poucos anos”, que tem sua trajetória marcada por um episódio que a faz refletir sobre o amor, o passado e suas escolhas ao longo da vida. De forte teor psicológico, leva o leitor a passear – de forma muita à vontade – pela casa, pelo passado, pelos amores e pela rotina da personagem principal, fazendo com que ele próprio reflita sobre a vida ao tempo em que lê as ponderadas e sábias reflexões da protagonista.

Natural de Patos, sertão da Paraíba, Renata Escarião é formada em Jornalismo, coordenadora do curso de Comunicação Social da Maurício de Nassau e, atualmente, cursa Doutorado em Literatura pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Para ela, escrever é algo natural e espontâneo. Vocação despertada desde os nove anos e que, com o passar dos tempos, aprimorou-se, resultando em Sandálias Vermelhas.

“Sempre escrevi mais em prosa como forma de expressar sentimentos. Nunca me vi como escritora, apesar de nunca ter parado de escrever. Ser uma das contempladas no Prêmio José Américo de Almeida, da Funesc, com este romance que está sendo lançado agora, foi o que me fez despertar para o fato de que minhas palavras talvez fossem mais do que eu julgava. De todo modo, considerando quase três anos de espera pela publicação, só me senti de fato escritora quando abri a caixa e segurei o primeiro exemplar impresso com meu nome na capa”.

Renata Escarião / Foto: Rafael Freire

Seu romance de estreia mostra, definitivamente, que suas palavras são bem mais. Impossível passar incólume e não se identificar, em algum momento, com os anseios, angústias, esperanças e dúvidas de Alice. A narrativa de Renata conduz o leitor a refletir sobre a finitude da vida, sobre o amor, sobre o peso do passado e sobre a importância – e necessidade – de recomeçar. Mais. Traz à tona a força que um amor – antigo ou novo – pode ou não ter para deixar para trás as dores causadas pelo passado. “Através do amor muitas coisas se realizam”, pensa Alice em determinada passagem.

Apesar de metódica, Renata revela que a história de Alice nasceu de forma espontânea, “fora do padrão”. O romance é o primeiro texto ficcional da autora, que sempre explorara nuances mais pessoais aos seus escritos, compilados no blog Enladeirada, mantido por ela. O espaço, aliás, foi o início e a inspiração maior para dar vida e palavras aos sentimentos e anseios da dona das Sandálias Vermelha.

“Esse romance seguiu a mesma linha dos demais escritos, foi espontâneo. A história e os personagens foram aparecendo página a página”, revela Renata, deixando no ar se Alice foi inspirada em sua própria trajetória: “Qual na literatura o limite entre a biografia e ficção? Há imparcialidade no jornalismo? Quanto de nós é colocado em um texto, propositalmente ou não? Não há como dar uma resposta precisa. Convivamos com o mistério”.

Para Alice, assim como para Renata (ou seria vice e versa?), “escrever é seu jeito de dar um pouco de poesia aos dias”. Sandálias Vermelhas reúne, em uma narrativa envolvente, sensível e emocionante, versos da experiência da personagem principal, que confundem-se com os versos diários de qualquer mulher de “trinta e poucos anos”.

Se Alice “Queria comer o mundo” e “colecionava desconhecidos”, Renata, com certeza, degusta de uma coleção de histórias que só ela sabe traduzir, conquistando o mundo e o cenário literário com sua sensibilidade traduzida em romances como Sandálias Vermelhas.

 

 

Contatos da autora:

Email: renataescariao@gmail.com

Celular: 9.8850-5852 (WhatsApp)

Inspiração de segunda, na terça

Fica difícil manter-se

Quando você some por uma semana

E a vida azeda

E o carro não pega

E não se sabe mais porque chora

o soluço  seco

Você chegou quando eu sabia quem era

E agora

Tantos anos depois

Você volta quando eu não tenho mais a mínima ideia de quem sou

Mas eu não sou mais aquela

(Graças a deus)

Nem consigo mais

Escrever uma linha inteira

Fico dando espaço

Espaço

Mas é difícil manter-se

Quando você some

Porque eu quero que você me (re) conheça

Mas as linhas foram cortadas

E agora é tudo virtual demais

E você off

E você off

Eu sempre on

Não tem encontro

Tem uma música

um filme

Tudo que eu queria te mostrar

Mas

Nem consigo mais

Escrever uma linha inteira

Fico dando espaço

Espaço

E você off

E aquele poema

Engoli

mais uma vez

o vigésimo coração

Não insisto

desisto

Eco

Odeio

quando me calam

E carregam minhas palavras

como eco em um abismo

Sem direito

 

Tão vulnerável

meu peito

rumina confissões

e cala declarações

que já não servem mais pra nada

Mulher Afrodite

Foto: Alessandra Soares
Foto: Alessandra Soares

A barra da minha saia vai arrastar na sua cara

meu pé pisar seu peito

e o perfume dos meu cabelo molhar sua camisa

*

eu vou dançar nas suas costas

sapatear no seu juízo

mordiscar sua língua

e bater  asas no seu ouvido

*

sussurrar no seu sono

deitar ao seu lado

tocar naquela música

exagerar seus desejos

*

eu vou estar lá

eu vou estar lá

mulher

Afrodite

Esvazia-dor

“Eu me apaixonei por você”, sussurrou ao silêncio do carro parado no sinal vermelho. Quase sem piscar, olhando pra frente, com a luz do semáforo refletindo no para-brisa. Não foi uma afirmação de quem se surpreende com a constatação, como uma revelação, foi um sussurro de quem entrega os pontos, transbordando naturalmente o que o peito não comporta mais. “Eu me apaixonei por você”, repetiu mais alto a medida que o eco da própria voz soava libertador. Repetiu o quanto quis até a frase  se transformar em canção. Um mantra. Que mal poderia fazer? Entregava-se apenas para si. Com os vidros fechados, o carro agora em movimento, as ruas quase vazias, nem Deus ouviria. E a quem interessaria? Nem a você. Por isso reverberou, assim, inofensivo, o mantra da noite. Esvazia-dor.

Para mainha. Domingo…

lonely_day_by_mangafan93

É, mãe, eu fui deixando o café mais forte e nem percebi. E também não tenho aquela vasilha de alumínio, amassadinha e gordinha, onde você sempre coou o seu. Certeza que faz diferença. Ultimamente, inventei de comprar uma garrafa menor, pra dar conta só de mim, mas nunca mais acertei o ponto, nem do sabor nem da quantidade. Acaba sempre sobrando.

Mas as nossas mãos estão cada dia mais parecidas, ainda mais quando passo a roupa do meu filho ou tempero o almoço. É impressionante. Percebi outro dia, enquanto ajeitava a fralda sobre a tábua de passar. Eu era toda você. Inclusive, até mudei de lugar. Ai em casa nunca teve tábua de passar, então tratei de esticar dois lençóis dobrados sobre a mesa de jantar, um em cima do outro pra ficar bem fofinho, e fazer do jeito que você sempre fez. Só pra me sentir mais perto.

Continuo lavando o banheiro com o desinfetante de pinho. Pra ter o cheiro que a casa ai tinha aos domingos. E até deixo a TV ligada no Faustão um pouquinho (mas só um pouquinho), pra lembrar como eu ouvia lá do meu quarto painho sentado no sofá rindo com a vídeo cacetada.

Já se foram 12 anos, mas acho que no fundo a gente nunca se acostuma. Chego a achar engraçado como estranho até o sotaque de vocês, mas quantas vezes não me pego usando expressões que só falamos por ai, só pra me sentir um pouco mais perto.

Eu me orgulho de absolutamente tudo em mim que parece com você, até dos defeitos!

Sinto saudade todos os dias.